RELIGIÃO E POLÍTICA – Parte 01

Por Rodrigo Queiroz

Esta combinação sugerida no título é ainda motivo de intensas discussões e normalmente pouquíssima reflexão producente. Pois é, falar de Política na Religião é filosoficamente tão paradoxal quanto o tema “Razão e Fé”.

Religião é o Sagrado, sim, isso é verdade; e Política é sacanagem, coisa ruim, jogo de interesses mesquinhos e… ops “pera aí”.

Imagino que os grandes democratas da Grécia Antiga se decepcionem com o que ocorre no sistema político do planeta atualmente quando se trata de troca de vantagens, propinas e mensalões da vida.

É certo que eu poderia tomar sua atenção tão preciosa para escrever centenas de páginas sobre as problemáticas sistêmicas da engrenagem política no país, e também é certo que posso usar o mesmo tanto de páginas para apontar coisas interessantes que já se fez e faz neste país e que, por não atenderem ao sensacionalismo e não vender mídia, não são tão expostas.

No entanto, neste primeiro momento, quero usufruir de sua especial atenção para refletirmos sobre princípios equivocados a respeito do tema proposto.

Religião, em síntese, é uma estrutura idealizada pelos homens para se relacionarem com o Sagrado, na intenção geral de estimular as virtudes, potências e proporcionar a tão perseguida transcendência consciencial nos indivíduos.

Muito bem, religião não existe sem indivíduos, todos os indivíduos pertencem a uma sociedade, um Estado, um Município, um País.

Já a Política é uma manifestação comportamental e natural nos indivíduos humanos e também no reino animal, tratemos aqui do H. Sapiens Sapiens. A Política sistemática, como a conhecemos, pretende ser uma estrutura para tratar das relações humanas a fim de atingir resultados esperados para a coletividade, esta que chamamos de sociedade.

Pois bem, antes da religião, portanto, temos a natureza política e o exercício político por excelência. Um templo religioso congregará indivíduos num contexto muito particular, mas que ao sair daquela estrutura voltam para a realidade social, existencial, palpável. O indivíduo continuará a se deparar com o trânsito, com as pessoas, com suas necessidades básicas e objetivos diversos.

A bem da verdade é que Religião é também uma maneira política de se relacionar com Deus, com o Sagrado, e que é tão natural no homem holístico.

Querer afastar o exercício e a participação política da religião é o mesmo que afastar Deus da sociedade. Percebe? Uma coisa está atrelada a outra.

Até aqui estou tratando da natureza comum aos homens, o religioso e o político.

As religiões se organizam normalmente sempre tendo um líder da comunidade, assim é a política democrática em nosso país, onde elegemos líderes para tratarem de interesses e necessidades dos grupos sociais.

Acontece que existe um ranço contra política e seus operadores, os políticos. Há um desânimo e profunda descrença na dignidade humana. Claro que não por acaso, por exemplo, estamos em pleno julgamento de um dos maiores casos de corrupção da história de nosso país. É constante virem à tona escândalos do gênero. Mas não esqueça, quem faz isso são cidadãos, entes humanos, muitas vezes com menos caráter do que eu e do que você.

Por outro lado, vemos frequentemente escândalos por desvio de conduta de muitos líderes religiosos: “Padres” pedófilos, “Pai de Santo” traficante, “Rabino” ladrão de gravatas, “Pastor” agressor e assim por diante. A questão é: a religião é o indivíduo? Ou o indivíduo está na religião? É a religião que ensina isso, ou é o indivíduo que é oportunista?

Quando falamos de políticos corruptos, imundos e sacanas, a mesma pergunta: política é o indivíduo? Ou o indivíduo está político? Quem rouba, a política ou o político?

Percebemos, numa reflexão mais profunda, que a política é tão metafísica quanto a religião, e o homem é quem concretiza de maneira boa ou não aquilo que exerce e representa.

Sou Umbandista, vejo diariamente denúncias de supostos “sacerdotes” cometendo atrocidades diversas dentro e fora do meu meio religioso. Não me espanto com os escândalos e, de certa maneira, acho bom, assim vai ficando claro que minha religião não é aquilo e que mais um indivíduo está fora de circulação e não poderá mais usar o nome da minha fé em vão; e, por outro lado, trabalho diariamente para fazer completamente o contrário, para expandir, ensinar e enaltecer a minha fé, meus irmãos na fé.

Assim penso que deve ser na política, pessoas de bem devem pleitear cargos políticos se desejarem tirar de circulação os charlatões, os falsários, corruptos e bandidos que se aproveitam da fé social do povo, ludibriam e sacaneiam.

Viu? No exercício prático, não vejo diferença entre religião e política.

As várias religiões são como os vários partidos, ou seja, maneiras grupais de ver e entender Deus e a Sociedade respectivamente. Mas que, independentemente da diversidade, é preciso existir em harmonia, pois tudo junto traz um bem maior.

Em nosso país, de dois em dois anos temos o processo eleitoral democrático, algo pelo qual meus avós e pais lutaram para conquistar e que hoje muitos de minha geração pouco compreendem a grandeza.

Pra mim não se trata de um ciclo para “obrigatoriamente” dar poder a maus políticos, trata-se de um ciclo de renovação de esperança, de responsabilidade cidadã, de participação para uma Cidade, um Estado e um País melhor.

É verdade, eu creio seriamente nisso, por isso é preciso saber em quem você deposita o seu voto, saiba que seu voto é a delegação de poder de algo que você gostaria de fazer, mas que outro deverá fazê-lo.

Não vote em discursinhos baratos ou em troca de nada, tampouco acredite em excesso de promessas, a verdade é que pouco se consegue fazer no tempo determinado, o importante é que se faça o certo, pois de pouco em pouco fazendo o certo em algumas décadas temos uma realidade melhor.

Cuidado com o discurso do tipo: Umbandista vota em Umbandista, Católico em Católico, ou coisa do tipo. Agora o que vale é o Cidadão votando noutro Cidadão, este que recebe o poder não poderá ter estes rótulos, e deverá promover melhorias que vão além de suas particularidades.

Tem muita gente se aproveitando, cuidado! Pesquise sobre o indivíduo, não só o que ele mostra, mas o que outros mostram sobre ele.

Aqui em Bauru, por motivos diversos, para Vereador eu voto em Mantovani 45.444.

Voltarei noutra postagem continuando esta reflexão. Deixe seu comentário, é importante.

Encerro com uma reflexão:

“Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam.”

– Platão –

Grande abraço,

2 Comentários

Arquivado em Pensamentos

2 Respostas para “RELIGIÃO E POLÍTICA – Parte 01

  1. helena lucia figo

    bom saber que em meio a tantos comentarios sobre religiao e politica existam pessoas interessadas no esclarecimento e reflexoes e nao so em nomenclaturas.

  2. Maria Elena

    Nossa como é bom ler textos tão exclarecedores e de conteúdo inteligênte,onde nos força querendo ou não à refletir e tomar atitudes mais conscientes!

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